A Copa do Mundo de 1962 foi a das superações. Dois anos antes, em 1960, o Chile havia sido devastado pelo Terremoto de Valdivia, o mais forte já registrado na história da humanidade. Diante da destruição, o presidente do comitê organizador, Carlos Dittborn, imortalizou a frase: "Porque nada temos, faremos tudo". O país conseguiu se erguer a tempo, com quatro das oito cidades-sede previstas. Santiago, Viña del Mar, Rancagua e Arica receberam os jogos, enquanto Talca, Concepción, Talcahuano e a própria Valdivia ficaram de fora.
Lá estava o Brasil, com sua vaga automática garantida pelo título de 1958 e com uma base experiente e badalada, trazendo Pelé no auge físico e técnico, sintonizado com Garrincha, Didi, Zagallo, Nilton Santos e Vavá. O favoritismo ao bicampeonato era unânime, mas o roteiro guardava dramas inesperados. A caminhada brasileira começou com uma vitória burocrática por 2 a 0 contra o México, com gols de Zagallo e Pelé. O grande susto aconteceu na segunda rodada, no empate em 0 a 0 contra a Tchecoslováquia: Pelé sofreu uma grave lesão muscular na coxa, ficou sem condições de recuperação rápida e foi cortado do restante do torneio.
Coube ao jovem Amarildo a missão de substituir o Rei. E ele mostrou sua estrela na última rodada da fase de grupos, contra a Espanha. O Brasil perdia por um gol e flertava com a eliminação quando Nilton Santos usou da malandragem ao cometer uma falta sobre um atacante espanhol dentro da área: deu dois passos rápidos para fora da linha, enganando o árbitro, que marcou apenas falta. Vivo no jogo, o Brasil buscou a virada por 2 a 1 com dois gols de Amarildo, liderando o Grupo C com cinco pontos.
A partir das quartas de final, a Copa do Mundo ganhou um dono definitivo: o Garrincha. Com Pelé fora, o Mané assumiu o protagonismo do time. No duelo contra a Inglaterra, o meia destruiu o com dois gols e uma assistência para Vavá, sacramentando a vitória por 3 a 1.
Na semifinal, o Brasil cruzou o caminho do Chile, que vinha embalado pelo apoio popular e por uma postura agressiva e violenta em campo. Diante de um Estádio Nacional de Santiago superlotado, a força chilena não foi páreo para Garrincha. Em mais uma tarde inspirada, Mané anotou dois gols, participou diretamente dos outros dois marcados por Vavá e carregou o Brasil nas costas na vitória por 4 a 2.
A final promoveu o reencontro do Brasil com a Tchecoslováquia, que eliminou Hungria e Iugoslávia nas fases anteriores. A partida aconteceu no Estádio Nacional, mas não começou bem para a seleção brasileira, que sofreu o gol tcheco aos 15 minutos do primeiro tempo. Porém, a resposta foi imediata: apenas dois minutos depois, Amarildo empatou a partida.
No segundo tempo, a maturidade do elenco brasileiro prevaleceu. Aos 24 minutos, o volante Zito virou o marcador com um gol de cabeça. Aos 33, Vavá fez 3 a 1 e deu números finais para o título brasileiro. Um milagre tático e emocional foi consumado em gramados chilenos: o Brasil conquistou o bicampeonato mundial consecutivo mesmo sem o seu principal jogador em 80% da campanha. Na hora de erguer a taça, o zagueiro Mauro Ramos manteve a tradição inaugurada por Bellini quatro anos antes e ergueu o troféu acima de sua cabeça, oferecendo a conquista a uma nação que aprendeu que, mesmo sem o Rei, o futebol brasileiro ainda era soberano.
A campanha do Brasil:
6 jogos | 5 vitórias | 1 empate | 0 derrotas | 14 gols marcados | 5 gols sofridos






